O legado de Chico Mendes, 30 anos depois

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Há exatos 30 anos, o Brasil perdia um dos maiores defensores do meio ambiente: Chico Mendes. Em uma tragédia anunciada, o então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no Acre, foi assassinado no quintal de sua casa, no dia 22 de dezembro de 1988, a mando de um fazendeiro.

Mais de 500 defensores dos direitos humanos e ambientalistas se reuniram ao longo dos últimos sete dias na “Semana Chico Mendes”, organizada pelo comitê que leva o nome do ecologista. Filha do homenageado, Angela Mendes conta que o clima foi de confraternização, mas diz que há o receio de uma ameaça ao legado de seu pai, que criou o conceito de reserva extrativista, hoje replicado em diversos formatos e locais do país.

— Nos últimos tempos temos sofrido com prejuízos e retrocessos, como cortes em setores que nos protegem — lembra Angela Mendes, filha mais velha de Chico e membro do Comitê Chico Mendes.

Chico Mendes foi morto com tiros de espingarda disparados por Darcy Alves da Silva, a mando do fazendeiro Darly Alves da Silva, pai de Darcy. Uma semana antes, ele denunciou à imprensa que tinha recebido ameaças de morte.

Em dezembro de 1990, depois de um julgamento que durou quatro dias, os assassinos foram condenados a 19 anos de prisão. Após cumprirem suas penas, os dois voltaram a viver em Xapuri, mesma cidade onde vivia Chico.

Angela afirma considerar que a maior parte da população, principalmente urbana, ainda não entende o conceito de área reservada e que, por isso, há resistência à proteção dos espaços. Uma reserva extrativista é uma área da União onde vivem populações tradicionais cuja sobrevivência se baseia no extrativismo, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte.

Tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, assegurando assim o uso sustentável dos recursos naturais da unidade. A terra de uma reserva é de domínio público, com uso concedido às populações tradicionais.

— Chico criou um modelo de território de uso coletivo que ainda não se pensava em criar no Brasil. Seu grande legado é conciliar a qualidade de vida com a proteção da floresta. Sabemos que hoje ainda existem mais 150 reservas a serem criadas, muito a ser protegido, no entanto a gente teme que, além de não serem criadas novas, possamos perder o que já se conquistou — preocupa-se Angela.

Conexão entre jovens

Outro desafio ao legado é manter suas ideias vivas, opina Joaquim Belo, presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros, organização criada por Chico Mendes. Com três décadas de distância, duas novas gerações de jovens membros de “povos das florestas” já nasceram e só conhecem o ambientalista pelos livros de História ou pelo que ouvem.

— Os eventos desta semana foram importantes para juntar o pessoal que viveu com Chico para contar suas experiências, assim as demais gerações se situam no espaço em que vivem.

Apesar de relatar que há grande pressão para que populações tradicionais deixem as reservas, Belo explica que há um esforço para que os jovens possam manter a conexão com a cultura tradicional de onde vivem.

— A gente tem acompanhado levantamentos que mostram que os jovens da floresta ainda têm alto grau de satisfação (80%) de estar na reserva. Quando você vai para o Cerrado e para o Nordeste, isso é menor. Temos trabalhado com os jovens para que eles tenham acesso a energia elétrica e tecnologias de comunicação. Essas duas políticas públicas são estratégicas para a juventude permanecer próxima de suas raízes e que possam assumir esse “bastão” da proteção.

Durante a semana, jovens leram um dos textos mais famosos de Chico Mendes: uma carta endereçada ao “Jovem do futuro”, datada para entrega no ainda longínquo dia 6 de setembro de 2120.

(O Globo, por Helena Borges)

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