No último dia do ano, a palavra 'mudança' ganha novo significado

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Serenidade, silêncio, trégua, calmaria. Os sinônimos de paz listados pelo dicionário podem até condizer com o que a maioria deseja, do alto de pequenos e até imperceptíveis privilégios, mas são incompatíveis com a definição na qual jovens e adultos da periferia de Fortaleza acreditam. Para eles, como na canção, a paz calada não é nem de longe a que querem conservar. O sossego vive mesmo é sob a mira da arma apontada, porque paz sem voz não é paz - é medo.

E, na contramão do estigma cravado pela sociedade, é coragem o que percorre as ruas do bairro Bom Jardim, na Regional V de Fortaleza, uma das mais castigadas pelo enfraquecimento de políticas públicas, sobretudo para a juventude. Quando o assunto é renda, educação e longevidade, pontos dos quais trata o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o território soma o 16º pior número entre os 119 bairros da cidade: 0,19. O Meireles, líder positivo, tem IDH de 0,95. O máximo é 1.

"Nossos principais desafios são os conflitos armados, multiplicados pela falta de políticas públicas efetivas. Isso acentua a desigualdade social, principalmente entre os jovens, e leva à violência", avalia a assessora de juventudes do Centro de Defesa da Vida Herbert de Sousa (CDVHS), Ingrid Rabelo.

A organização não-governamental, sustentada com recursos de uma instituição católica alemã, desenvolve atividades nos eixos de direito à cidade, vida da juventude, educação em direitos humanos e resistências culturais no grande Bom Jardim, há 24 anos. A maior dificuldade no território, segundo Ingrid, é desconstruir a ideia do armamento e adotar o diálogo como instrumento de mediação. "Paz não é ausência de conflitos, é quando a política pública chega em sua efetividade, quando o direito é garantido. Quando não há moradia digna, e sim um contexto de violência, é impossível alcançá-la", define.

Além da sede, as atividades do CDVHS também adentram nas escolas públicas do bairro, desenvolvidas pelos próprios jovens "para fortalecer o pertencimento e a identidade com o território, buscando também soluções para tornar a escola mais atrativa e agradável". Uma das vidas ainda breves que perpetuam as ideias e dão fôlego ao Bom Jardim é Megh Soares, 17, que faz do Maracatu um caminho possível "para ficar longe das drogas e da violência"

Para ela, o estereótipo ofensivo atribuído ao bairro onde vive deve ser repensado pelos "estrangeiros" e combatido pelos próprios moradores com ações concretas. "Temos que começar a agir onde a violência está predominando, e ainda estamos tentando fazer isso aqui. É uma mudança de dentro pra fora, e não o contrário. A gente tem que mostrar pra juventude o que a arte e a educação proporcionam".

Para chegar à paz tão castigada neste ano e tão desejada para o próximo, então, a consciência tão jovem quanto rica de Megh ensina: é preciso um olhar atento, mas gentil; crítico, mas otimista. "As pessoas ainda têm essa coisa de que o Bom Jardim é o bairro do 'vixe'. Mas a gente tem que mostrar que aqui tem cultura, arte, educação, e mudar o pensamento de quem é de fora. Aqui é violento, todo canto é. Mas o Bom Jardim não é só o lado ruim. Espero que a gente seja visto como o bairro da paz e do amor, e que consiga realizar tudo o que quer em 2019".

(Diário do Nordeste, por Theyse Viana - Foto: Saulo Viana)

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