Lira Nordestina retoma sua atividade primordial após ficar durante seis anos sem imprimir exemplares

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Atraído pela figura do Padre Cícero, José Bernardo da Silva pisou em Juazeiro do Norte no ano de 1926. Na bagagem, trazia folhetos clássicos que resolveu imprimir em paralelo ao trabalho como comerciante de ervas e raízes. No fim da década de 1930, comprou a primeira impressora. Manual e barulhenta, era apelidada de "quebra-pedras".

Aos poucos, montou sua tipografia no quintal de casa. Depois que adquiriu, em 1949, os direitos de publicação do acervo e as máquinas de João Martins de Athayde, de Recife, tornou-se o principal editor de literatura de cordel do Brasil. Surgia, assim, a Tipografia São Francisco, que, mais tarde, tornara-se a Lira Nordestina, segundo o pesquisador de cultura popular Gilmar de Carvalho.

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Matrizes do acervo da Lira Nordestina Foto: Antônio Rodrigues

Entre as décadas de 1950 e 1980, a tipografia foi responsável pela maior publicação de cordéis do País. A produção era massiva e contava com os serviços de 10 a 15 funcionários. Clássicos como "O Romance do Pavão Misterioso", de José Camelo de Melo, "Proezas de João Grilo", de João Ferreira de Lima, e "A Donzela Teodora", de Leandro Gomes de Barros, saíam de Juazeiro do Norte e ganhavam o mundo.

Desde 2013, no entanto, não imprimia cordéis, deixando de atender o que o xilógrafo José Lourenço classifica como sua função principal. Essa mesma voz incansável na luta pela Lira Nordestina é sinônimo de boas novas. Em fevereiro, a gráfica retomou o trabalho com dois títulos: "GeoPark Araripe", de Maria do Rosário Lustosa com xilogravura de José Lourenço, e "O Cariri e o Geoparque", do Professor Lula Fideles com xilogravura de Airton Laurindo.

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Detalhe de reprodução do acervo da Lira Nordestina Foto: Antônio Rodrigues

Inicialmente, foram impressos 2,5 mil exemplares de cada um. Mais quatro mil serão rodados até o fim deste mês. Isso graças a recursos provenientes de parcerias com instituições como a Universidade Regional do Cariri (veja matéria nas páginas 4 e 5 do caderno Verso deste domingo (24)).

Embora não esteja ainda com a produção dos seus tempos áureos, já há motivos para comemorações. Nos últimos anos, a Lira Nordestina funciona mais como laboratório de gravura que de cordel. "Isso a gente quer mudar", garante Lourenço.

"Desde os anos 1980, a impressão já era prejudicada por requerer muitos tipos, que são as letras que a gente trabalha. Como hoje não fabrica, estavam ficando desgastados. Chegou ao ponto de não atender mais, dar impressão".

Preciosidades

Ao ressaltar a importância da Lira Nordestina para a cultura popular, o pesquisador e jornalista Gilmar de Carvalho acredita que a volta das impressões incentivará novos autores da Região. Além disso, será importante para proporcionar visibilidade a esta produção.

"A retomada dos clássicos é importantíssima, mas não fecha a questão. Já dizia Edgar Morin que 'a tradição não prescinde da novidade'. Quando estiverem imprimindo novos autores será maravilhoso. Isso, claro, com conselho editorial, com critério e com metas", justifica Gilmar.

"O acervo da Lira Nordestina é o que temos de melhor no cordel, do ponto de vista histórico, pela manutenção de um catálogo com os clássicos, os títulos que eram lidos coletivamente, que eram transmitidos oralmente e fizeram do cordel esta referência. Talvez algumas instituições tenham clichês, mas nada se compara ao que a Lira tem", acredita.

Dela saíram xilógrafos como Stênio Diniz, José Lourenço, Francorli Correia, Nilo Pereira, Naldo Leite, Airton Laurindo, Cícero Vieira, Justino Bandeira, Cícero Lourenço, Demontiê Gonzaga, Elosman de Oliveira, Cosmo Braz, Manuel Antonio e Gilberto Pereira.

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Folhetos impressos na fase de maior produção da Lira Nordestina Foto: Antônio Rodrigues

"Este grupo elevou a gravura do Juazeiro à categoria da excelência e foi bem recebido no exterior, refazendo o circuito das exposições da Universidade do Ceará, nos anos 1960. José Lourenço expôs em Amsterdam (Holanda), e, por último, em Milão (Itália). Francorli foi à Lituânia e, agora, expõe em Brest (França). Este grupo não teria existido não fosse o espírito gregário da Lira, instalado pelo cordelista Expedito Sebastião da Silva, e mantido, mesmo no vácuo", pontua Gilmar.

Adquirida pelo Governo do Estado em 1982, a Lira Nordestina foi doada à Academia Brasileira de Cordel. Nessa época, a própria gestão ficou difícil, tendo um núcleo em Juazeiro do Norte e outro em Fortaleza.

Seis anos depois, a gráfica, com sede em Juazeiro do Norte, foi transferida para a Universidade Regional do Cariri.

"A Urca nunca teve um projeto definido para a Lira. O tempo passou, as máquinas ficaram cada vez mais sucateadas, o pessoal que trabalhava lá foi dispensado e nada aconteceu. Passou por várias sedes e cada mudança tornava o equipamento mais precário. Muita coisa se perdia nestas improvisações", lembra o pesquisador Gilmar de Carvalho.

A esperança de voltar a ser uma das grandes editoras de cordel aconteceu em 2012, quando a Lira Nordestina foi contemplada com uma máquina impressora Offset, por meio do projeto Ponto de Cultura, do Ministério da Cultura.

"A gente pensou que ia imprimir tudo, porque era um sonho, tanto para preservar os tipos, como para imprimir mais rápido. Aí veio dificuldade para comprar o material, o papel. Tentava projetos, não dava certo", diz José Lourenço.

Até 2013, com apoio do projeto "Sesc Cordel Novos Talentos", do Serviço Social do Comercio (Sesc-Ceará), a gráfica ficou ativa, lançando 10 clássicos selecionados. Mas a produção parou por ali.

Sem projetos e recursos, a máquina ficou ociosa e, com o tempo, as peças começaram a se desgastar. Os rolos de borracha, por exemplo, ressecaram. "Foi a própria dificuldade de manter. Não tinha como comprar papel, imprimir os clássicos porque tem um custo alto. A maioria tem 32 páginas, 40 páginas", explica.

Romarias

Nesse vácuo, os xilógrafos que trabalham no equipamento recorreram à criatividade para manter a Lira Nordestina em atividade, a exemplo de impressões das matrizes em azulejos, produção de carimbos e de cartazes. A constante visita de romeiros estimulou-os a lutarem para reativar sua atividade primordial: a edição de cordéis.

Na recepção aos visitantes, José Lourenço e seus colegas costumam recitar algumas poesias já publicadas, causando emoção. "Alguns até choravam, lembravam do pai, da mãe", narra. A procura pelo cordel voltou.

A tipografia, que se mantém ligada à Urca, por meio da Pró-Reitoria de Extensão, conseguiu aporte financeiro da própria instituição para retomar as impressões dos cordéis. Foram investidos R$ 3.847,05 na compra de peças e no reparo técnico da impressora para que a máquina voltasse a funcionar. "Hoje se faz necessário. Todo mundo que chega aqui quer levar um cordel", conta Lourenço. O equipamento tem capacidade para imprimir 8 mil folhas por hora.

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Azulejos com xilogravuras ajudam a manter o equipamento Foto: Antônio Rodrigues

Segundo a pró-reitora de Extensão da Universidade Regional do Cariri (Urca), professora Arlene Pessoa, "a Lira Nordestina é um ícone da cultura popular. Tem mais esse valor cultural. Não é mais a questão da Lira como gráfica, o que pesa é a Lira como instrumento de cultura nacional e internacional. A ideia, agora, é voltar a produzir, pelo menos, os clássicos", completa.

A gráfica é mantida praticamente apenas pela Urca. Há um termo de parceria assinado entre a instituição, a Secretaria de Cultura do Estado e a Secretaria Municipal de Cultura de Juazeiro do Norte, que rege sobre a administração do equipamento.

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José Lourenço exibe impressora dos folhetos Foto: Antônio Rodrigues

No entanto, o documento está obsoleto, esgotou o período de vigência e nunca foi renovado. A professora Arlene Pessoa tem tentado atualizar e dialogar com as duas pastas. "Agora vamos retomar as conversas", garante a pró-reitora.

Enquanto isso, as impressões estão sendo retomadas, aos poucos, como trabalho voluntário. As vendas dos livretos servirão para trabalhar novas edições, comprar material.

Acervo

A Lira Nordestina tem aproximadamente 170 capas originais dos cordéis, ainda em placas de metal. "São peças que não existem mais no mundo", ressalta José Lourenço. O material é do tempo que José Bernardo da Silva trouxe de Recife. "Além do diferencial de ser impresso na Lira, as capas não serão cópias. Aqui, será do próprio clichê antigo", acrescenta. No futuro, José acredita que a Lira Nordestina poderá voltar a editar conteúdos inéditos e utilizar a tipografia nas capas.

Apesar de possuir os direitos autorais das obras clássicas, a maioria já entrou em domínio público. Os poetas já morreram.

"A obra tem que ser repassada. Não pode ficar no fundo do baú, pelo respeito com o artista, pela história da literatura de cordel", acredita o xilógrafo.

(Diário do Nordeste, por Antônio Rodrigues - Foto: Antônio Rodrigues)

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