Jovens promovem com a fotografia analógica um encontro entre a estética e o resgate de memórias

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A capital cearense é preenchida por arte e, principalmente, por quem a faz. Com a fotografia não seria diferente. Em tempos tão digitais e instantâneos, jovens lutam para manter viva a tradição do processo analógico, menos amparado nos recursos tecnológicos e mais ligado à sensibilidade. Luisa Machado sempre teve o ímpeto de registrar o cotidiano por meio de imagens, mas foi uma câmera antiga dada pela avó que despertou nela o desejo de experimentar a fotografia analógica.

Curiosa, a jovem não se contentou em usar o artefato como decoração e resolveu buscar referências em fotos antigas da família. "A vovó tinha a câmera para registrar as coisas dela, nunca foi um negócio muito pensado como arte. Só que, para mim, era uma coisa de outro mundo pegar os slides que ela tinha. Eram umas 15 caixinhas com fotografias e nunca mexia nelas", diz.

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Luisa digitalizou as fotos antigas da avó e as veicula em conta
no InstagramArquivo pessoal

Luisa decidiu, então, não só fazer suas próprias fotos, mas também digitalizar os filmes antigos da avó, Maria Cecilia Machado, para que pudessem, juntas, revisitar as lembranças imagéticas guardadas no fundo do armário.

"Sempre esteve lá, mas agora, ela foi vendo as fotos e me contando as histórias de cada uma. Eu já sentia que a fotografia era muito ligada a ela pela câmera, porque eu já estava usando a mesma que ela usou há 50/60 anos, mas falar com ela sobre isso e mostrar as fotos que eu fazia, me fez considerar que foi tudo pensando nela, não tinha como não ser".

O sentimento que surgiu desta primeira experiência foi um caminho sem volta para Luísa que adquiriu uma câmera menor e a leva sempre no bolso, junto com as memórias afetivas da avó. "Eu vi o processo do negócio, sabe? Não foi só tirar uma foto no celular, aquela foto que você nunca mais olha. Eu acho que no analógico, eu adquiri um olhar de mais carinho e cuidado", completa.

Arte como profissão

Mesmo com o apego emocional e nostálgico que a fotografia analógica pode vir a remeter, muitos jovens têm levado-a para além dos álbuns de família. Guilherme Freire trabalha com o uso do filme desde 2017, quando expôs suas fotos, pela primeira vez, pelo Coletivo Muvuca, o qual fundou e organizou ao lado de outros amigos artistas. "Descobri a fotografia a partir da fotografia com filme. Logo de cara, fui atraído pelo processo de revelação da imagem e a sua presença física, fixada no negativo".

Guilherme
Guilherme dá preferência às câmeras de Médio Formato - Arquivo pessoal

Entretanto, ao contrário do que estamos hoje acostumados, com a instantaneidade e a capacidade de armazenamento dos aparelhos digitais, o limite de exposições e a velocidade reduzida do processo analógico o faz caminhar bem mais devagar. E isso não é uma desvantagem.

"Fotografar em filme é um processo muito cuidadoso. Cada clique é uma contagem regressiva das fotos restantes do rolo. Exige uma cadência que aproxima o fotógrafo do que está sendo fotografado. Fotografar assim me ensinou a respeitar cada etapa do processo e a valorizar mais o resultado final, seja bom ou ruim", explica o fotógrafo.

Entre estas escolhas precisas de câmeras, filmes, horários e objetos fotografados é que a fotografia analógica se constrói para além do momento de disparo do obturador. Porém, segundo a fotógrafa Taís Monteiro, o processo de revelação pode mostrar algo bem diferente do que foi imaginado. Para ela, essa espera é o momento mais valioso.

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Taís Monteiro fotografa artistas sonoros de Fortaleza - Thais Monteiro

"O interessante é o acaso. Diversas vezes, a fotografia se revela diferente do que planejei. Às vezes porque o filme está vencido ou porque há um erro de entrada de luz, e a foto fica com um vazamento em algum lugar. Às vezes, as cores estão mais contrastadas. O acaso é aceito, por mim, como um fator construtor da imagem. Deixo de controlar tudo".

Além de ser professora de audiovisual da Rede Cuca, Taís fotografa em proximidade com artistas sonoros em Fortaleza. Criou, recentemente, as capas dos álbuns 'Filha de Mil Mulheres', de Clau Aniz, e 'Pontes de Vidro', de Caio Castelo, por exemplo.

O futuro do analógico

Para ambos, a perspectiva no mercado é positiva. Guilherme salienta que, mesmo com tantas pessoas fotografando em câmeras digitais e celulares, a demanda de resgate ao analógico tem sido expressiva.

"Empresas como Kodak e Ilford têm relançado filmes antes descontinuados e o mercado de arte também tem valorizado os trabalhos que se voltam para esse processo. Acabou se formando, então, uma comunidade bastante engajada, em movimentos que difundem a resistência do analógico, desde perfis de Instagram e canais de Youtube até a produção de livros e exposições com essa temática", elucida.

Principal veículo de imagens online, atualmente, o Instagram abriga grande parcela da comunidade analógica que procura resgatar esta técnica. Hashtags como #filmisnotdead, #ishootfilm e #35mm são algumas das mais usadas na tentativa de visibilizar ainda mais a produção fotográfica destes jovens.

Taís acredita ainda que "a fotografia é uma linguagem ainda nova. Nos primórdios, diversas fórmulas de revelação eram divididas e experimentos eram propostos por fotógrafos inventores de técnicas novas. E estas práticas sempre existiram e sempre vão existir. O processo fotográfico é mágico e provoca curiosidade de como a imagem é captada", prevendo, assim, um longo e próspero futuro para os processos artesanais.

Além do disparo 

Fotografar em si não está dentre as prioridades de David Felício no que diz respeito ao fazer analógico. "Não é nem a câmera, não é o filme em si. É a relação com o fotografar e com o fotografado, que eu consigo ter por conta da fotografia analógica", relata.

Dessa forma, o jovem consegue alcançar esse contato por outros meios ao revelar, ampliar, digitalizar e vender filmes fotográficos, além de organizar um bazar analógico, onde revende câmeras que não cabem mais na sua coleção.

Começou vendendo algumas câmeras e filmes em feiras de fotografia, em 2015, e foi quem começou a levantar diversas pautas sobre o assunto na cidade. Dentre elas, ressalta a necessidade de conhecimento quanto aos impactos relacionados à produção da fotografia analógica.

"Precisamos ter consciência de que a fotografia causa dano ambiental, tanto o descarte quanto os químicos usados e, consequentemente, usar com responsabilidade", adverte. Para além dos processos individuais que o fazer artesanal exige, David destaca ainda a importância da formação de uma comunidade interessada.

Assim, é possível ultrapassar barreiras como o alto custo dos produtos e a conservação da memória por meio de acervos de imagens analógicas. "A gente se fortalece para todo mundo continuar fazendo o que quer sem gastar muito", relata e conclui: "Temos que saber lidar com essas questões ambientais e da memória. Pensar como esses documentos estão sendo incorporados às nossas políticas públicas".

(Diário do Nordeste)

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