Chef cearense lidera projeto que resgata tradição de doces típicos do Estado

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O universo da cozinha sempre esteve presente na vida da cearense Marina Araújo, 28, que cresceu cercada pelas tortas, bolos e banquetes preparados pela mãe para vender. O amor e o zelo com que os pratos eram feitos a contagiou, no entanto, a culinária como profissão só aflorou alguns anos depois.

Antes de assumir a veia gastronômica, Marina trabalhou com a área de marketing de moda. "Minha mãe era uma mulher muito apaixonada pela cozinha, pelo fazer, pelos bons ingredientes", relata.

O apreço pela confeitaria foi tanto que logo veio o reconhecimento e, dois anos após assumir como profissão, em 2016, a chef conquistou o primeiro lugar no programa "Que Seja Doce", reality de gastronomia do canal GNT. Já em 2017, Marina mudou-se para Portugal com a proposta de assumir a cozinha de um restaurante, onde passou a morar desde então.

Reconhecimento

Em terras lusitanas, a confeiteira participa do Festival Fartura Portugal, que acontece até amanhã (17), em Lisboa. Ela representa o Brasil ao lado dos chefs Flávio Trombino e Paulo Anijar. A cearense mostra cardápio inspirado na diversidade da sua terra: sertão, mar e serra, num conto de própria autoria, "O sonho do pescador".

"É muito especial participar disso, é um fechamento brilhante da minha temporada em Portugal. É um reconhecimento do meu trabalho, das excursões que eu fiz, dos estudos, do quanto eu me capacitei, da minha vontade de mudar o mundo".

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Cozinha de Roberto e Lenilse Pires, em Sobral, onde são
preparados doces típicos

Para Marina, na verdade, as pequenas escolhas também causam impacto no mundo, sejam elas positivas ou negativas. "Você já pensou se estivesse comprando de agricultura familiar ao invés do hortifrúti do supermercado? As escolhas que a gente faz no nosso dia a dia, o que colocamos no nosso prato, a procedência, enfim, são coisas muito importantes e a gente pode sim pensar sobre elas, pra serem positivas", diz.

Outro regimento do trabalho de Marina é o movimento slow food - em tradução livre, comida lenta -, que pensa justamente neste consumo mais consciente de alimentos e mais sustentável. Além de priorizar pela valorização da comida, diferente dos moldes das refeições de fast foods.

"Gosto de pensar de onde vem o ingrediente, o fazer muito dedicado, de como o resultado tem um impacto positivo na vida das pessoas". Outro hábito apontado por Marina, como fundamental, é procurar consumir o que está na sazonalidade e o que é produzido localmente, respeitando sempre o tempo da natureza.

Raízes

Apaixonada pelo Ceará e pela cultura, a chef não quis ficar somente nas paredes das cozinhas e, neste ano, deu início ao Projeto Cumbuca, definido por ela como "fortalecimento da cultura alimentar cearense". Com a realização, Marina pretende percorrer o Estado e visitar 27 localidades, entre elas o Cariri, o Sertão dos Inhamuns, o Vale do Jaguaribe e o litoral para conhecer a feitura de doces tradicionais.

"O nome veio da cumbuca mesmo, artefato que herdamos dos indígenas. Um objeto redondo, que não tem fim, e que conecta uma comunidade quando ela está em uma cerimônia, por exemplo, e a mesma cuia/cumbuca é passada de um para outro", explica sobre a escolha.

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Rapadura tradicional produzida no município de Viçosa do Ceará

O projeto, portanto, surgiu da ideia de abraçar três coisas muito queridas por Marina: gente, comida e as origens. "Veio da vontade de criar algo que ficasse de forma didática para as pessoas de modo a tocar o coração delas, de fazer o resgate do que elas perderam", afirma. Sempre muito inquieta, a chef explica que o Cumbuca foi uma forma de suprir o desejo de ela estar sempre atrás do novo e criando.

Futuro

Até o momento, a chef já visitou nove localidades, uma delas foi Sobral, onde conheceu Roberto e Lenilse Pires. Na cozinha rústica, o casal produz queijadas, feitas de coco, açúcar e leite; 'bulim', à base de goma, leite de coco e ovos; e fartes - uma espécie de pastel de origem portuguesa que recebeu características cearenses com toque de gengibre e castanhas de caju.

O resultado será condensado em livro e série para o canal do YouTube da chef. A obra servirá como uma espécie de glossário sobre o universo da doçaria local. Marina espera que, até agosto de 2020, o produto esteja pronto.

"O Cumbuca está se tornando o projeto da minha vida, se desenhando em tudo o que eu sempre sonhei, que é juntar a minha vontade de pesquisar, de conhecer as pessoas, as tradições, valorizar o meu Estado e aprender a fazer essas coisas", revela.

Para Marina, as expectativas de realizar esse projeto são de registrar a oralidade e as tradições, além de poder alcançar cearenses e brasileiros. O desejo, então, é estimular um novo hábito para as pessoas que perderam a conexão com o que comem.

(Diário do Nordeste, por Lívia Carvalho - Foto: Jamile Queiroz)

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